A diferença em si, e quando vivemos nela, é uma normalidade.
Diferentes são as banalidades dos outros.
Ando desconfiada que o puto aqui do lado tem um problema
qualquer.
Bem, o puto até que é giro, mas… mas… Sabem, no outro dia
estava a fazer um bolo e faltava-me um ovo. Aproveitando que o meu estava
entretido com a TV fui à casa da vizinha rapidinho. Bati à porta, pedi desculpa
pelo incómodo expliquei que estava a fazer um bolo e me faltava um ovo, ela
sorriu e foi à cozinha buscar o ovo e eu, claro, segui-a, foi aí que o miúdo
entrou de rompante na cozinha e disse com todas as letras: " Mãe dá-me água."
A sério, não estou a brincar, ele disse: “MÃE DÁ-ME ÁGUA”!
Fiquei perplexa. Não querendo ser cusca, mas ficando intrigada, resolvi tirar
esta história a limpo e de manhã pus-me a espreitar pela janela. Lá ia ela tão
segura de si levando-o pela mão. O miúdo ia de fato de treino. Entraram no
carro e seguiram… Será que ela o ia levar à escola? Àquelas horas só podia ser
isso, mas ele ia assim para a escola? Que falta de brio! Que iriam os outros
dizer?
Foi mais ou menos uma semana depois que tive a certeza que o
puto tinha um problema. Eu tenho cá um olho, nunca me engano! Numa sexta-feira,
à hora do almoço, entro ali num restaurante da baixa e que vejo? A minha
vizinha sentada numa mesa a almoçar com o filho. Tenho a certeza que era ela,
pois fiz todos os possíveis para passar mesmo encostadinha à sua mesa. Era ela
sim. Com o puto. Ele sentado a comer as suas batatas e, imagine-se, estava
contando coisas da escola. Das aulas! Das matérias que eles dão na escola!
Pronto, agora eu tinha a certeza! O puto era aquilo que os
médicos dizem um neurotípico!** Tinha de falar disto às outras. Na hora da
terapia da fala, fui lá para fora fumar um cigarrito e telefonei à Maria.
Beijinho para cá, beijinho para lá e vou directa ao assunto:
– Maria, que achas disto? O puto da minha vizinha não aponta
com o queixo para a torneira e não faz hum, hum… Ele diz: “Quero água”!
– Tens a certeza?
– Tenhoooo! Eu estava lá e vi. Garanto-te que ele entrou na
cozinha e disse: “Quero água”.
– Pois, pois… Olha nem sei que te diga…
– E mais, vi-os a ele e à mãe no restaurante. Ele estava
sentado ao lado da mãe a comer e a contar coisas da escola.
-Não me digas! Não andava a correr pelas mesas e a roubar
batatas fritas de todas as mesas?
– Não! Estava sentado a comer batatas. As batatas dele! Ah,
e sabes a mãe até o manda para a escola de fato de treino?
– Que horror! Como de fato de treino! E os outros não o
discriminam?? Olha lá, como se chama a tua vizinha? Vou ver a página dela no
Facebook, já te ligo.
Que grande ideia a da Maria, como não pensei nisto antes? O
mural dela era estranho. Não havia um único post a falar do filho. Falava de
tudo e mais alguma coisa, mas nem um do filho, nem fotos do miúdo, nem
gracinhas. Nada!
Acham esquisito, não é? Mas a coisa não fica por aqui, nessa
noite antes do jantar o Chico foi despejar o lixo e levou o puto, vai sempre
com o pai, despejam o lixo e dão uma voltinha pelo quarteirão, são os meus dez
minutos de folga, e resolvi aproveitá-los da melhor maneira. Fui à casa da
vizinha devolver o ovo que tinha pedido. Bati à porta, ela foi simpática mas um
bocadinho fria, nem sei explicar isto muito bem, espreitei por cima do ombro
dela e exclamei:
– Tem uma casa tão gira!
-Oh! Nada de especial, mas entre – disse, abrindo mais a
porta – entre que estou ali a preparar as coisas para a festa de anos do miúdo.
– Não quero incomodar…. Festa de anos?
– Sim, é já no sábado…
A sala estava desarrumada, não é que eu seja de reparar nas
coisas dos outros, mas havia brinquedos por todo o lado e os carrinhos estavam
ao monte. Quanto mais via, mais me convencia que aquele puto era excêntrico.
Porque raio não teria o puto alinhado os carrinhos? Provavelmente a psicologia
até teria uma razão para isto… a natureza humana é estranha…
E Sábado chegou, ouvi uma algazarra enorme no patamar,
entraram para aquela casa mais de 10 miúdos! Um pouco depois voltaram a sair e
foram jogar à bola para o jardinzinho ali da frente… Isto só filmando, sei que
não acreditam em mim, mas juro, os putos atiravam a bola uns aos outros como se
estivessem previamente combinados, e o pai estava sentado no banco do jardim
lendo o jornal impávido e sereno ….
Fechei a janela com força, são estas coisas que eu não
entendo…
-Chico! Olha lá porque não vamos sair?
-E para onde queres tu ir?
– Sei lá! Podemos ir passear para o campo…
…
Tive oportunidade de conhecer melhor a minha vizinha e o seu
estranho miúdo e devo-vos dizer que até gosto deles… Apesar de serem bastante
diferentes …
Liberdade 2017

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