"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

Omistau


Esta é a história da minha vida, a história de uma viagem sem regresso. Uma história cheia de lugares comuns, mas foram as histórias vulgares, de gente vulgar que fizeram a história gigante deste país onde eu agora moro, Omistau. Cheguei há muitos anos, já quase nem tenho memória do passado, por vezes sinto que sempre morei aqui.

O destino era Paris. As malas estavam prontas com a devida antecedência, o roteiro também. Tanto para ver em Paris, tanto para conhecer, tanto para sonhar. A espectativa era grande. A arte, as revoluções, o pensamento, as pessoas todas diferentes, o encruzilhar de línguas, de passos, de cores, de cheiros. Paris estava tão perto… Nunca cheguei a Paris. Nem sei explicar muito bem o que aconteceu. Uma turbulência no voo, depois o pânico, os gritos, o terror seguido da aterragem de emergência, brusca, repentina. O avião a aterrar, as sirenes, os médicos, as ambulâncias… Lembro-me de olhar para trás e ver o avião envolto nas chamas altas, depois… Ah, depois seguiram-se as perguntas:

Onde estou? Como saio daqui? Porquê eu? Nem os sensatos, nem os sonhadores, tão pouco os homens da Ciência, tinham a resposta, mas todos eles foram unanimes em dizer: “Estás em Omistau”.








Omistau








Liberdade
Omistau, dias de 2019




Omistau é imenso, bem maior que os recém-chegados podem pensar. A vila está rodeada de altas montanhas. Diz-se que depois das montanhas só há mar, intensamente azul. Para lá chegar é inevitável escalar as montanhas, mas para sair daqui seria necessário transpor o mar. Este é o sonho de todos os que aqui habitam.

As montanhas são cobertas de densas florestas. As árvores, na sua maioria, são jacarandás um pouco diferentes dos que conhecemos, pois sua flor é azul, o que dá às florestas um ar misterioso. Quem lá foi jura que no coração da floresta habitam gigantescos seres com corpo de pássaro e cabeça de leão: os anzus, que no princípio dos tempos, terão roubado aos deuses as Tábuas do Destino, obtendo assim um poder ilimitado sobre os mortais. O seu voo gera intensas tempestades e o seu grito é capaz de chocalhar o mundo inteiro. Por tudo isto crê-se que Omistau fica no umbigo do mundo. Daqui terão partido os primeiros homens, levando com eles as Tábuas do Destino roubadas aos anzus. Espalharam-se então pelo mundo, originando assim diversas civilizações, onde a constante foi sempre a luta pela posse das tabuas, que davam o poder sobre os demais, a obtenção do poder foi a causa de todas as guerras. Mas talvez alguns tenham ficado, não sabemos.

Omistau permaneceu oculto durante milénios, já que daqui ninguém consegue sair. Mas durante a 2ª guerra mundial despenha-se o primeiro avião trazendo 12 passageiros, um deles estava indevidamente no avião. É ele que descobre Omistau. Tão singular foi o feito que o mundo ficou a saber que algures existia um sítio com o nome de Omistau. Tal suscitou grande interesse na comunidade científica, deslocando muitos cientistas que chegam de avião, aterrando suavemente no aeroporto. Na verdade qualquer pessoa pode aqui vir e aqui morar, mas são tantas as histórias que se contam sobre Omistau que a simples passagem por aqui gera pânico, mantendo assim toda e qualquer pessoa afastada.

Antes do 1º avião cair já aqui morava gente. Calcula-se que tenham chegado por mar, cujos barcos encalhavam nas rochas da praia. Quem chegava vivia perdido na floresta, sofrendo horrores por falta de condições. Ainda é possível que haja quem chegue por mar e das florestas não saia, apesar dos homens da ciência e os sensatos fazerem tudo para que todos os que aqui chegam morem na vila. Esta é a única maneira de sobreviver. O grande enigma está em entender porque é que há aviões que se despenham e os seus ocupantes ficam aqui cativos. Porquê só alguns? Que critérios de escolha são usados? E quem define esses critérios?

“Porquê eu?” É a pergunta que permanece sem resposta. Na verdade, já nem sei se isso me importa. Aprendi a viver aqui, no entanto daria tudo para sair. É a ideia de ficar aqui para sempre que me assusta, mais até que propriamente morar aqui.

Às portas da vila existe um enorme monumento feito em memória dos onze primeiros que aqui chegaram, em 1943. É um paralelepípedo sublime, feito de safira com uns leves laivos cor-de-rosa que, erguido ao céu, dá as boas vindas a quem chega. Nas suas faces tem gravado os nomes dos onze pioneiros, mas no topo falta-lhe um pedaço, como se um bocado de pedra tivesse sido partido. Dizem os sonhadores que o mistério de Omistau será resolvido quando se encaixar o pedaço que falta. Na verdade todos o procuram, é isto que se faz por aqui.

Os primeiros dias que aqui passei, não foram fáceis. Logo de início fui acolhida pela Casa da Ciência que me deu alguns conselhos para poder sobreviver aqui, mas não obtive as respostas desejadas às minhas questões. O que me deram pareceu-me tão pouco... Por isso corri ao templo, numa ânsia de ajuda divina. Era reconfortante pensar que a solução, aparentemente inexistente, não passava pelas minhas mãos.

Numa dessas tardes de preces não atendidas cruzei-me com Maria. Maria é mais velha que eu, já aqui mora há muito tempo. Tem um rosto tranquilo e o olhar distante. Lembro-me que me estendeu a mão, sentamo-nos e conversámos. Contei-lhe vezes sem conta a minha chegada e não dei conta que Maria nunca me falou da sua chegada. “Podemos conversar um bocadinho. Existe uma enorme necessidade de falarmos, como se o assunto nunca se esgotasse por si. Gosto de ouvir.” – Dizia-me, e repetia-me vezes sem conta – “Cuidado com os sonhos, quanto maiores eles forem, maior será a deceção. Tire isso da cabeça, acredite na Ciência. Eu acredito que um dia sairemos, mas será pelas mãos da Ciência.” Maria é reconfortante, um porto seguro. Traz-me tranquilidade, acho-a sábia, sempre sensata e ponderada. Maria tinha uma enorme preocupação em tornar a vida em Omistau melhor e estava sempre ocupada executando tarefas com esse fim.

O tempo passava e a vida acontecia. O sol nascia, vinha o dia, seguido da noite, a Primavera fazia esquecer o Inverno e os jacarandás cobriam-se de flores azuis. Todos os dias, fosse que estação fosse, chegava gente, com as mesmas angústias, as mesmas perguntas que continuavam sem resposta. A minha vida dividia-se entre a Casa da Ciência e as conversas com Maria, sempre, sempre incansável executando tarefas. Ajudava-a sempre que me era possível, mas ficava com a sensação que não dava o meu máximo.

Certo dia soprou um vento vindo da floresta. Os anzus estavam inquietos, ouvia-se um murmúrio, ainda que não passasse de um murmúrio, como se fosse um conspirar. Adivinhava-se algo, gerava-se entre os habitantes de Omistau uma certa inquietação. Foi por essa temporada que conheci Kikas, uma jovem de ar traquinas, cabelos aloirados e olhos intensamente verdes. Recordo bem o nosso primeiro encontro, como o poderia esquecer? Kikas era diferente de tudo o que conhecia. Quando a vi, pela primeira vez, plantava flores cor-de-rosa à beira da estrada. Tal coisa pareceu-me disparatada, já que por aqui tudo era azul. Aproximei-me dela curiosa e questionei porque o fazia, respondeu-me: “Porque há flores cor-de-rosa. O mundo não é cinzento como o pintam, existem sonhos!” – Lançou-me um olhar desafiador – “Nunca ouviste dizer que é o sonho que comanda a vida? Vá, diz-me, o que fez a Ciência por ti? Tirou-te daqui? Não respondas que eu sei a resposta” – soltou uma gargalhada – “Destruí os teus sonhos, um por um. Os teus e de todos os que lá vão. Maldita Casa!”

Nunca a tinha visto por ali. Imaginei que tivesse chegado há pouco tempo e estaria desesperada com a falta de respostas da Casa da Ciência. Zanguei-me e respondi-lhe no mesmo tom: “Ouve, não sejas idiota, eu também tenho sonhos, fé e esperança. Faço o que posso, convém é termos os pés assentes na terra, não basta sonhar”. Kikas concentrou-se na sua tarefa baixando o rosto sobre a terra – “Não vês que estou atarefada? Tenho tanto, tanto que fazer, todas estas plantas para plantar. Acredita no que te apetecer, não me imponhas o teu ponto de vista! Vá, corre para os teus queridos cientistas e manda-lhes beijos meus.” – Ria e continuava teimosamente e obstinadamente, espetando flores cor-de-rosa na beira da estrada.

Hesitei entre o medo do diferente e o aconchego das minhas rotinas, venceu a curiosidade: – “Kikas… Dá cá isso, eu ajudo-te, mas pára um bocadinho. Não te parece mais lógico se nos juntássemos todos? Sei lá, talvez pudéssemos ter uma ideia… Fazer algo… Algo pensado, estruturado. Melhorar a vida, já que é impossível sair daqui… Conheces a Maria?”

Kikas dá um salto e ergue-se, aproxima-se de mim e, com ares irónicos, diz-me: – “És gira, achas então que nos podemos juntar? Achas? Afinal a sonhadora, és tu… Sim, já ouvi falar na Maria, da Casa dos Sensatos. Os sensatos são uns conformados. O mundo anda para a frente, não te esqueças disso. É o sonho que faz o mundo girar.” – Fez uma pausa, olhando para as flores cor-de-rosa, e depois concluiu: - “Olha, esquece… Continua na tua vidinha que eu continuo na minha.” Ainda assim, passou-me uma cesta de pés de flor que eu ia espetando com menos entusiasmo que ela, interrogando-me se algum dia aquelas flores iriam vingar.

Apesar do meu primeiro encontro com Kikas não ter corrido nada bem, fiquei a pensar nela e nas suas flores cor-de-rosa. Era uma lufada de ar que entrava na minha vida. Este foi o meu primeiro contacto com a Casa dos Sonhos.

Comecei a passar muito tempo na Casa dos Sonhos, e depressa aderi aos sonhos de Kikas. Viviam-se, agora, dias agitados em Omistau, até a Maria andava entusiasmada – “Sinto-me capaz de embarcar nesse sonho.” – Dizia-me – “ Sinto-me cheia de energias, sabe bem esta agitação, esta nova esperança, coisas novas, evoluir”.

Kikas não estava sozinha, com ela estava um batalhão de gente nova, que trazia ideias novas. Intitulavam-se guerreiros, capazes de transpor todas as barreiras. Nascia um verdadeiro exército, era a chegada dos guerreiros. Mas sempre que um exército se ergue, deve-se erguer-se também o seu opositor. Ninguém se lembrou disto, mas os ventos vindos da floresta não amainavam, os anzus continuavam cada vez mais agitados, e nós, tão envolvidas estávamos nos sonhos, que ignorámos os sinais. 

Era a vida que acontecia. O sol nascia e vinha o dia, seguido da noite, a Primavera fazia esquecer o Inverno e os jacarandás cobriam-se de flores azuis. Entusiasmadas, unidas, mais fortes que nunca, construíamos um outro futuro. Só a Casa da Ciência parecia indiferente: “Ainda não é possível. Um dia, sim um dia, deixariam de chegar os aviões, mas não está para breve. Tudo é muito complicado, muito mais complicado que os leigos possam pensar”. Kikas zangava-se e gritava comigo:“ Vês? Vês? Destruir sonhos é a única coisa que sabe fazer.” Aprendi a gostar da Kikas sempre tão arrebatada, mas tão firme nos seus projetos.

Finalmente havia um caminho traçado, um plano e todas as Casas, excetuando a Casa da Ciência, estavam unidas. As assembleias aconteciam na praça dos pioneiros aí discutiam-se os detalhes, criaram-se grupos de trabalho, executaram-se tarefas. Foi aí, porque as ideias são como as cerejas, atrás de uma vem outra, que nasceu a solução mais lógica, um verdadeiro ovo de Colombo. Reconhecida a impossibilidade de sair daqui restava-nos cativar estrangeiros para que o nosso isolamento fosse suavizado. Quando Omistau estivesse povoado de estrangeiros passaria a ser parte do mundo. 

O caminho traçava-se, sem que dessemos conta disso. Os discursos na praça dos pioneiros eram cada vez mais ardentes, a Casa dos Sonhos unia-se à Casa dos Sensatos e é neste auge que aparece Michael, irrequieto, de olhos escuros, fazendo lembrar os de uma águia. Suas mãos não paravam quietas, como se dirigisse uma orquestra.

Começava-se a planear o derrubar das fronteiras, construir pontes. No entanto, e não sei precisar em que exato momento, aconteceu a discórdia. Começaram as mentiras, as intrigas, as desconfianças já não havia o mesmo entusiasmo. Foram estes os acontecimentos que nos levaram a reparar que os ventos vindos da floresta eram cada vez mais fortes. Os anzus estavam muito agitados, como se alguém lá estive tentando roubar a última Tábua do Destino. Mas, mesmo havendo fortes suspeitas que isso pudesse acontecer, desvalorizávamos o facto.

Lembro-me de ter comentado com Kikas, ainda que cada vez fosse mais difícil termos uma conversa: “Kikas, não gosto do que tem vindo a acontecer. Tantas intrigas, tantas mentiras, não vês que isso pode pôr em risco o derrubar das fronteiras? As pontes não podem cair!” Mas Kikas tinha-se tornado ainda mais arrebatada do que era. Os seus olhos tornaram-se mais verdes como se neles estivessem todos os oceanos. Kikas tinha como ninguém a dádiva do sonho e tão grande era a sua confiança nos sonhos que originou o nascimento de Ómeira[1] um lindíssimo cavalo alado, que montava magistralmente. Quando Ómeira nasceu, todas as flores cor-de-rosa que Kikas havia plantado desabrocharam ladeando os caminhos.

Em Omistau já não se distinguia a realidade do sonho. Tentei resistir, intrigava-me o cavalinho: “Como podes tu ter um cavalo alado? Eles, simplesmente não existem.” Kikas ria-se: “Não existem? Como não existem se eu tenho um? Não tenhas medo dos sonhos, sobe no meu cavalinho que eu levo-te à floresta.” E desaparecia no céu confiante.

Tudo isto criava em mim muita insegurança. Corria então ao meu porto seguro, Maria, que por sua vez também estava diferente: “São os ventos da mudança, é normal haver pequenos conflitos, depois as coisas tendem sempre a normalizar.” Esgotada, sozinha, também eu comecei a levitar, numa doce e inconsistente fantasia de que se pode viver sem poisar os pés no chão duro e irregular.

Só que as coisas não normalizaram. Crescia a desconfiança e a suspeita de que havia gente na floresta tentando domesticar os anzus, era cada vez maior. As assembleias tornaram-se um caos, já ninguém se preocupava com o derrubar das fronteiras, com o construir de pontes. Em vez de planos e estratégia, havia acusações, críticas, sarcasmo.

E um dia, o inevitável aconteceu. Confirmando todas as suspeitas, o vento soprou com muita força, fazendo um barulho devastador. Eram os Anzus que sobrevoavam a vila, cobrindo por completo sol. Michael montava um deles, o mais veloz, o mais feroz. Nas mãos trazia a Tábua do Destino, nunca se soube ao certo, como conseguiu domesticar os anzus e a proeza de roubar a última tabua, a sua avidez de poder era tão forte, tão excessiva, que venceu todos os obstáculos e com ela dominou a assembleia.

Todos os presentes aplaudiram de pé, quando o anzu de Michael aterrou suavemente junto ao monumento. Michael orgulhoso exibiu a Tábua do Destino e deu início ao mais arrojado discurso, onde prometeu a construção de muitas pontes, a rutura total com o passado, e sugeriu que o monumento aos pioneiros fosse totalmente destruído, para que todas as memórias fossem apagadas.

A vida acontecia. O sol nascia e vinha o dia, seguido da noite. O Verão fazia esquecer a Primavera. Rapidamente, tudo passou a depender de Michael.

De início tudo corria bem, mas Michael tornou-se autoritário. Muitos foram expulsos das assembleias por discordarem, outros mantinham-se calados com medo de serem expulsos. Os mais velhos eram ignorados, postos de lado, impedidos de colaborar, mesmo que quisessem fazer parte do projeto de construção. Até Maria, que sempre foi cooperadora, foi afastada da praça dos pioneiros.

Agora nada poderia deter Michael, apesar das fronteiras não terem sido derrubadas nem as pontes construídas. Em dada altura acontece uma fragmentação, de um lado os apoiantes de Michael que se tornava o senhor de Omistau, do outro os eternos sonhadores que queriam a construção da ponte. O exército de Michael era forte e numeroso, e ninguém tinha coragem para o enfrentar. Aprisionados, sem respostas da Casa da Ciência, era fácil cair na cilada das palavras de Michael. Era fácil acreditar, aparentemente Michael era a única solução, mesmo sabendo que com ele nenhuma ponte seria construída.

O tempo passava e a vida acontecia. O sol nascia, vinha o dia, seguido da noite. O Outono despia os jacarandás, espalhando todas as suas flores pelo chão, tecendo assim um desmesurado tapete que cobria a vila, era o inverno que se aproximava. Continuava a chegar gente, com as mesmas angústias e as mesmas perguntas que continuavam sem resposta.

Maria estava imensamente triste, nunca a tinha visto assim. Recordou pela primeira vez a sua chegada, o quanto lutou e trabalhou para a construção da vila. Chorava desalentada, nunca mais lhe vi um sorriso. Quieta, olhava o céu demoradamente, sem forças para construir um exército que se opusesse-se à tirania de Michael e à sua obsessão de apagar o passado, destruindo o monumento, mas manteve-se sempre sensata: “Nada pode destruir o passado. O passado faz parte do caminho, foi ele que nos trouxe até aqui. Sem memórias, as pontes jamais serão construídas.”

O dia da demolição do monumento chegou rapidamente. Na praça dos pioneiros estavam todos os habitantes de Omistau. Gerava-se um certo burburinho, os que perante a evidência da demolição entenderam que tal ação era vazia e os que acreditavam que o primeiro passo seria derrubar as memórias. As primeiras pedras foram lançadas, seguiram-se muitas mais. O paralelepípedo em safira ia-se desmoronado. Foi Kikas que fez frente a Michael, sobrevoando a praça dos pioneiros, no seu cavalinho alado, Ómeira, gritando: “Respeito pelos pioneiros! É em memória deles que temos que continuar a sonhar.” Travou-se uma terrível batalha da qual Michael saiu vencedor. Ómeira cai sem vida aos pés do monumento já bastante danificado. Na praça dos pioneiros faz-se um silêncio atroz. Os habitantes de Omistau abandonam a praça dos pioneiros deixando Michael sozinho. Kikas num pranto corre em direção à floresta e todas as flores que tinha plantado fenecem, ficando as ruas ladeadas de flores cinzentas …

Maria nunca mais sorriu, Kikas mora sozinha na orla da floresta. Os jacarandás estão despidos de flores, o Monumento feito em safira continua na praça dos pioneiros, apesar de bastante danificado ainda é possível ler o nome dos onze pioneiros.

O tempo passa e a vida acontece, o dia nasce, seguido da noite, é o inverno, frio e ventoso…

Esta é a minha história. Vulgar, cheia de lugares comuns. Esta é a história de Omistau. Quero acreditar que um dia Maria volte a sorrir, a construir e que restaure o monumento, que Kikas volte a sonhar para que Ómeira ressurja e que por aqui possam nascer flores de outras cores, quiçá a Casa da Ciência descubra o pedacinho de safira azul que faltava no monumento da praça dos pioneiros. Enquanto isto não acontece vagueio sem rumo por Omistau…


Fim.

Dedico aos 11 pioneiros:
Donald
Frederick
Richard
Paul
Barbara
Virginia
Herbert
Alfred
Charles
John
Elaine



[1] Ómeira significa feito de sonhos

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