Alcino vivia para lá deste mar, a sua casa tinha um muro que separava o seu quintal do quintal da vizinha, mas aquele muro causava-lhe angustia, sentia-se enclausurado por isso derrubou o seu muro e partiu com o sonho de conhecer o que havia para lá daquele mar.
História de um amor interrompido
Lisboa, 10 de Junho de 1995
Alcino olha a Rapariga na pista de dança esta sorri-lhe e num passo de dança insinua-se, ele aproxima-se tocam-se os corpos entrelaçam-se os olhares.
Onze arguidos iniciam a descida e avistam a vítima X, indivíduo de raça negra, que caminhava, sozinho, pelo passeio do lado direito, no sentido descendente.
Acto contínuo, os onze arguidos, B, C, D, F, G, H, I, J, L, M e O, perseguem-no, tendo este tentado fugir no sentido ascendente da Rua Garrett.
As mãos escorregam pelo corpo dela aconchegam as suas ancas, segredam palavras de amor incessante, ela desvia-se um pouco dá uma gargalhada puxa-o para si e gesto continuo unem as bocas. Toca uma morna perdem-se no tempo. ..
É o arguido M aquele que primeiro o alcança e agarra, rasteirando-o.
De imediato, a vítima X é rodeada pelos onze arguidos, B, C, D, F, G, H, I, J, L, M e O, que o envolvem e começam a sová-lo, agredindo-o por todo o corpo com socos e pontapés.
Simultaneamente arrastam a vítima no sentido descendente da rua. “
Junto à montra da loja "Gianni Versace", o X é de novo rasteirado, ficando prostrado no solo.
Sucedem-se os socos e pontapés dos onze arguidos que o envolvem, B, C, D, F, G, H, I, J, L, M e O.
- Mãe viste aquela camisa vermelha?
- Esta no armário já passadinha, vais sair?
- Vou até ao Bairro alto .
- Vais com quem?
-Sozinho mesmo – Sorri – Conheci uma garina, vamos dançar
Rêza pa mim nha cretcheu
Scuta por Deus esse nha dor
Imagem doce di nha vida
Jam crê morá na bô peito
Pa consola'm esse nha do
-Tu te cuida filho tu te cuida, não gosto que vás sozinho, há gente má.
-Mãe!!
Esse bô odjinho ê di meu
Esse bô sorriso ê pa mim
Fala'm si bô cá squece'm
Pá inda n'creb tchê
-Vem cedo…
X foi assim atingido com diversos pontapés na cabeça, tendo vestígios capilares do mesmo ficado entranhados numa das botas utilizadas na altura pelo arguido B.
Já no final é com a vítima prostrada no solo em decúbito ventral, inanimada, o arguido I colocou um pé sobre a cabeça da vítima, levantando os braços em atitude de triunfo.
Alcino desce a rua sozinho ia contente, guardava ainda na boca o sabor do seu suor, sentia o seu cheiro e depois talvez partir para outro lado do mundo e os sonhos iam crescendo .
Nesta altura, estes onze arguidos abandonam o local e dirigem-se para a Rua Nova do Almada.
No entanto, três arguidos cuja identidade não foi possível apurar voltam atrás e dirigem-se de novo à vítima X, cujo corpo jazia inanimado no solo e recomeçam a dar pontapés indiscriminadamente por todo o corpo da vítima, que saltava animicamente face à força dos golpes imprimidos por esses três arguidos ao pontapeá-la.
Alcino sente passos atrás de si apresa o passo quando um individuo agarra-o, os outros cercam-no…
Subitamente estes três arguidos abandonam o local novamente em direcção a Rua Nova do Almada, juntando-se aos restantes oito elementos do grupo, do qual nesta altura desertou o arguido J por ter ficado impressionado e arrependido por tudo quanto fizera anteriormente.
Com a sua conduta os arguidos B, C, D, F, G, H, I, J, L, M e O, causaram a vítima X, as lesões descritas no Relatório de Autópsia de fls. 1298 a 1301 dos autos
- Maria! Maria, vem depressa grande confusão no Bairro alto. Mataram o teu filho
Maria deixa-se cair sobre o corpo mutilado do seu filho e chora desordenadamente a seu lado em silencio uma jovem desfazendo-se na noite, guarda na boca o sabor do suor de Alcino….
Para ti Alcino
Liberdade, 22 de Maio de 2014

Comovente… bem escrito!!! Infelizmente uma história real!!!!!
ResponderEliminarSJ
Parabéns! pelo texto e pela lembrança.
ResponderEliminar