“Súbito
d’ante os olhos se apartou.
Desfez-se a nuvem negra e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.”
Desfez-se a nuvem negra e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.”
(Camões)
Morreu
Morreu, espalhem a notícia, não
sei quem o matou, se foi a criança ou o velho, se foi o doutor ou o operário,
sei que está morto.
-
Está morto!
-
Morto? Tem a certeza?
-
Morto e enterrado.
-
Como foi?
- Pois não sei! Se com sete facadas ou nove, se estrangulado na
noite, se um tiro perdido mas certeiro… Mas espalhem, espalhem a notícia.
Desci a calçada a correr,
espalhando a notícia aos sete ventos.
- Está morto – disse a professora, e soltando uma gargalhada
acrescentou – posso finalmente dar a aula. Mas, tens a certeza que está morto?
-
Sem qualquer dúvida, a notícia veio de Lisboa… Até já o
enterraram!
-
Ó senhor Doutor, já sabe quem morreu?
-
Sim já ouvi dizer, e a ser verdade tenho muito que fazer –
Posso finalmente tratar dos meus doentes.
-
E eu vou estudar – diz o estudante – nem posso acreditar que
acabaram aquelas noites infernais.
-
Espalhem a notícia, espalhem a notícia…
-
Já avisaram a Madame?
-
Óhh nãooooooo! E agora quem me lava o chão? – Lamenta a
madame.
E a notícia espalhou-se, bem
certo que esta agradava a muita gente, mas – mas porque há sempre um mas –
houvera quem não ficasse contente.
-
Morreu? – O banqueiro não queria acreditar.
-
Pois morreu, sou eu que lhe digo. Pode pegar nos seus
trapinhos e zarpar daqui.
-
Com quem pensas tu que falas? Ainda há autoridade! Pois bem,
deixa-te estar aí que eu vou chamar a polícia.
- Esteja à sua vontade, já lhe disse que morreu. Morto e bem
morto! Com 7 palmos de terra em cima.
- Está lá, é da polícia? Façam o favor de cá vir, tenho aqui um
arrogante, a fazer-me frente… E venham com urgência!
-
Como podemos ir? Ele morreu! – Responde do outro lado o
polícia.
-
Cambada de idiotas… Eu ordeno! Venham cá rapidamente!
-
Ordene à vontade, mas eu se fosse a si zarpava… E agora se me
permite vou ali informar o senhor Prior.
Fui até ao largo, entrei na
igreja e passei pelo prior. Subi a escada da torre.
-
Onde pensa que vai? – Pergunta o pior.
-
Subir à torre, tocar o sino a rebate, para que o mundo inteiro
saiba da notícia.
-
Mas que foi que aconteceu?
-
Foi ele que morreu.
-
Paz à sua alma, que Deus o receba, mas diga-me lá quem morreu?
-
O Medo morreu.
-
Morreu? Mas como foi isso? É trágico! E agora quem vai para o
inferno? – Desesperado o prior começa a gritar – Quem permitiu isto? Como foi
possível? Que será de mim?
Os sinos tocavam agora a rebate.
Toda a gente ficou a saber que o Medo tinha finalmente morrido.
Do cimo da torre pude ver, o
banqueiro, a madame, o prior, o polícia e o militar que de rabinho entre as
pernas abandonavam o país.
Liberdade
3 de Outubro de 2012

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