O pau que nada valia
e
o boneco que não servia para nada
Bonifácio vivia perto de um
bosque, que, como todos os bosques, era fresco e verde, de cheiros intensos e
agradáveis. Bonifácio tinha uma vida simples. Fazia a sua horta vendia os
produtos excedentes no mercado, o que lhe davam dinheiro suficiente para
comprar o que necessitava.
Um dia Bonifácio foi ao bosque
com o fim de buscar uns paus para a lareira e teve uma ideia: pegou no seu
canivete e, do pau que nada valia, construiu um bonequinho que para nada
servia.
No dia da feira, Bonifácio vendeu
o boneco. Na semana seguinte, o comprador do Boneco foi ter com o Bonifácio e
encomendou mais 5 bonecos. Intrigado com esta encomenda, Bonifácio vai para
casa e comenta com sua mulher:
-
Tive uma encomenda de 5 bonecos. Para que raio o homem quer 5
bonecos? Para que serve um boneco feito de um pau? Vais ter que ser tu a tratar
da horta que eu tenho que fazer os bonecos.
-
Está bem. Não me importo de tratar da horta.
Para seu espanto, na semana
seguinte, outra encomenda. Desta vez 10 bonecos. Estranho aquele mistério. Tão
estranho que Bonifácio vai averiguar o que raio se estava a passar. No fim da
feira, Bonifácio segue o homem e dá com uma loja onde estavam os bonecos na
montra com um grande letreiro “compre o boneco da sorte, ele atrai
dinheiro, amor e sucesso”. À porta da loja, uma grande multidão.
Todos queriam os bonecos...
A partir daquele dia, Bonifácio nunca mais teve um minuto
de descanso. Era tanto o trabalho que ele e sua mulher passavam os dias a fazer
bonecos e, mesmo assim, não davam vazão a tanta encomenda.
- Não acho muito correcto o Cipriano andar a enganar as pessoas,
dizendo que o boneco dá sorte – comentava, volta e meia, a sua mulher.
- Cala-te, mulher, o importante é vender bonecos. Cada um acredita
no que quer- respondia-lhe Bonifácio.
O grande argumento de Bonifácio é que um dia seriam ricos.
Tão ricos que teriam um carro, uma casa grande, muito, muito dinheiro e poder.
Seriam pessoas poderosas.
Bonifácio teve que contratar
pessoas para ajudar na construção do boneco, a quem pagava a décima parte do
valor do boneco. Construi um armazém ao lado da sua casa, onde os trabalhadores
faziam os bonecos. Depois de prontos, os bonecos iam para um quarto sem janelas.
Diziam que era ali que Bonifácio lhes dava o banho da sorte.
- Home, não acho nada disto correcto. Tu não dás banho da sorte
nenhum. Estás a enganar as pessoas – comentava, volta e meia, a sua mulher.
- Cala-te, mulher burra, cala-te. Eu é que sei.
Agora Bonifácio já não fazia
bonecos. Tomava conta dos seu trabalhadores que eram muitos. Ao lado do
armazém, outros armazéns foram construídos. O negócio dos bonecos ia de vento
em poupa.
Todos queriam o boneco da sorte.
Por outro lado, a loja do Cipriano também cresceu. Teve de contratar mais
empregados para vender o boneco e abriu outras lojas, noutras terras. Também
Cipriano, agora, já não vendia bonecos. Tomava conta dos seus empregados.
Na vila havia movimento, agitação
e comentava-se:
- Já tens o boneco da sorte?
- Sim, mas mais 15 meses de trabalho e terei mais dois.
- É fantástico. É que dá mesmo sorte! Tive tanta sorte que
arranjei trabalho na fábrica de bonecos. Depois do banho da sorte, o boneco
fica poderoso. Simplesmente fantástico.
- Pois é. Vou trabalhar muito, para ter muitos bonecos.
É que não bastava só um boneco. Para
se ter muita sorte, ter-se-ia que ter vários bonecos.
As pessoas andavam contentes,
muito contentes. Agora tinham sorte, tinham sorte em ter trabalho, tinham sorte
em ter comida, tinham sorte em ter filhos bonitos e perfeitos. Era uma vila de
sortudos e tudo graças ao boneco da sorte.
A vila estava eternamente
agradecida a Bonifácio. De tal forma, que no centro da vila foi inaugurada uma
estátua de Bonifácio.
O único problema de Bonifácio era
a sua mulher burra, que estava sempre a dizer:
- Home! Eu não acho bem. Para que queres tanto dinheiro? As
pessoas trabalham tanto e é tudo mentira. O boneco é só um pau que nada vale.
- Tu cala-te, mulher burra.
- Que vais fazer com os sacos de dinheiro que tens escondidos?
- Ai mulher que tu és burra, tão tu não vês que o dinheiro da
vila agora está todo aqui? Muito em breve as pessoas, se quiserem comprar
comida, terão primeiro que me comprar dinheiro.
- Mas isso é uma coisa muito má. Tu vais vender o dinheiro?
- Pois claro que vou. Mulher, olha que tu és burra.
- Tu és mau. Eu vou contar a verdade a toda a gente.
Bonifácio ficou verde de raiva. Ninguém
podia saber a verdade. Tinha que arranjar um plano para se livrar da mulher. Se
assim pensou melhor o fez.
Num dia cinzento, foi encontrado
o corpo da mulher de Bonifácio.
Veio a polícia e o juiz.
Bonifácio estava preocupado e foi falar com o juiz e com o chefe da polícia.
- Senhores, entendam, eu não posso ir preso. Se for preso, quem
dará o banho da sorte aos bonecos?
- Mas a lei tem que ser cumprida.
- Uma parte das vendas será para vocês. Fica assim combinado.
- Parece-me uma boa ideia, a vila não pode ficar sem o boneco. Se
a fábrica fechar, ficarão todos no desemprego. Não, isso não pode acontecer.
O julgamento da morte da mulher
de Bonifácio aconteceu. A polícia conclui que foi morta por um assaltante. Afinal
ninguém tinha visto Bonifácio matar a mulher.
Bonifácio andava pelos cantos,
fingindo-se muito triste com a morte de sua mulher. O povo, que adorava
Bonifácio, ao vê-lo tão triste dava-lhe mimos, muitos mimos ... tudo para que a
vila não ficasse sem o boneco.
Bonifácio gostava de ser amado
pelo povo. Gostava de ser caridoso. Por isso, sempre que alguém não tinha
dinheiro, Bonifácio emprestava 10 moedas. A única condição seria dali a uns
meses serem devolvidas 11 moedas...
E a vila cresceu e Bonifácio
tornou-se o homem mais importante da vila. E tudo isto graças a um pau que nada
valia.
Ahhh! Já me esquecia de vos
contar que o bosque fresco e verde, de cheiros intensos e agradáveis,
desapareceu, para dar lugar a montes e montes de armazéns mal cheirosos.
Histórias sem pés nem cabeça
Liberdade
Setúbal, 19 de Maio de 2012

Adorei!! Se aprofundasses, dava um bom livro. Banca, ambição desmedida, capitalismo, o dinheiro como principal valor, preocupações ecológicas... Tens aí uma boa intriga.
ResponderEliminar:)
ResponderEliminarAinda bem ... fico contente podes agora contar aos teus filhos
ResponderEliminarMto bom!!!!!! a falta de ética e valores num mundo capitalista...
ResponderEliminar:))
ResponderEliminarainda bem que gostaste