V
A Menina que não gostava de falar
Desenho de Rui Veleda
O Autismo é uma perturbação
do desenvolvimento que afecta a comunicação. Muitas crianças dentro do espectro
do autismo recusam-se a falar. Em
Portugal uma criança em cada mil está
dentro do espectro do Autismo. As famílias não dão tréguas à luta contra o
Autismo .
A
história que eu vou contar é verídica e mostra bem que o amor vence todas as
barreiras.”
A Menina que não gostava de falar
Estou
aqui às voltas a tentar escrever uma história acerca de uma menina que não
gostava de falar. Como não gostava de falar, não falava e, assim sendo, ninguém
sabia por que motivo ela não gostava de falar.
Estou
a tentar perceber o que é isso de falar, o que são as palavras e para que
servem. Já
há muito tempo que muitas pessoas andam às voltas com esta questão e ninguém
ainda descobriu por que motivo há meninos que não gostam de falar.
Mas
voltando à história da menina que não gostava de falar.
A
mãe da Rita andava muito triste. Todas as suas amigas tinham filhos que diziam
”dá, rua, mamã, papá…” e a sua Rita nada dizia. Veio o doutor e disse:
-
Vamos lá ver se a menina não tem uma pequena avaria nas cordas vocais. Às vezes
acontece...
E
o doutor viu e tornou a ver.
-
Hum, está tudo bem, que se passará?
A
pequena Rita sorria, mas nada dizia.
-
Ãhhh, já sei! A menina não fala porque não ouve, se não ouve não sabe como são
as palavras, por isso não fala.
Mas
a menina ouvia porque dançava sempre que a música tocava.
A
mãe da Rita andava muito triste. Como seria bom ouvir a pequena Rita falar! Sonhava
dia e noite em ouvir a sua voz, mas o certo é que a pequena Rita ia crescendo e
não dizia uma palavra...
A
Rita tinha um tio muito rezingão, o Ti Rui, como todos lhe chamavam. Ele estava
encarregado de tomar conta dela e tudo fazia para que a pequena Rita falasse.
Contava
histórias, levava lá para casa animais que encontrava na rua, mas a Rita nada
dizia. Apenas sorria. Há muitas maneiras de falar e, quando a Rita queria dizer
“gosto de ti, Ti Rui”, apertava-lhe a mão com muita força. Não havia
necessidade de palavras, bastava ela pensar.
Um
dia, passeava o Ti Rui na rua e viu uma pobre bicharoca, que não era nem um
cão, nem um gato, ferida numa patinha.
-
Anda cá bicharoca – chamou – o que tu és?
-
Eu sou um Sacarrabos.
-
Es tão gira. Como te chamas?
-
Margarida. E tu?
-
Eu sou o Rui, mas podes-me chamar Ti Rui, como todos.
-
Queres ser meu amigo?
-
Claro que sim, vou-te levar lá para casa e tratar dessa patinha.
Ao
chegarem a casa, a Margarida percebeu logo que o Ti Rui era muito rezingão:
-
Sai daí Margarida, não me roas o sofá!!! O quê???? Estás deitada na minha
cama.... Ufa ainda não fiz o jantar... não te empoleires, ai que estragas isso
... Ohhh!!! Derramaste tinta em cima dos meus desenhos...
A
Margarida não se ralou nada com os resmungos do Ti Rui e num instantinho toda a
casa parecia um campo de batalha.
Mas,
apesar disso, Margarida continuou a viver em casa do Ti Rui e tornou-se a maior
amiga da Rita. As duas brincavam muito e o melhor ainda é que a Margarida não
parecia nada chateada por a Rita não falar. Elas comunicavam por telepatia, ou
seja, bastava a Rita pensar e a Margarida sabia logo o que ela dizia e o mesmo
acontecia em relação à Margarida.
-
Rita, sabes, o Ti Rui é muito resmungão, mas gosta muito de ti. Porque não
falas com palavras?
-
Eu não gosto de palavras. Elas ralham e mandam a gente fazer coisas que não
queremos.
-
Mas as palavras também podem ser doces, podem contar histórias lindas.
-
Vou pensar no teu caso, Margarida, mas não é preciso eu falar. O Ti Rui sabe
que eu gosto dele.
-
Como sabe? Ele não lê pensamentos, eu tenho que usar palavras para falar com
ele e acho que devias fazer o mesmo.
E
se fosse verdade? Se o Ti Rui não soubesse ler pensamentos não sabia que ela,
Rita, gostava muito dele. A Rita começou a ficar muito preocupada com esta
ideia. Ela sempre pensou que o Ti Rui lesse o seu pensamento.
Naquela
tarde, quando o Ti Rui chegou do trabalho com as mãos cheias de presentes, a
Rita correu para ele.
- Onde está a Rita???? - esta era a pergunta de
sempre. E a Rita, como sempre, não respondeu.
- Onde está a Rita? - voltou a perguntar o Ti Rui. E, como ela não respondia, perguntou uma terceira vez:
-
Onde está a Rita?- Onde está a Rita? - voltou a perguntar o Ti Rui. E, como ela não respondia, perguntou uma terceira vez:
Então era verdade. O Ti Rui não sabia ler o seu pensamento. A Margarida tinha razão. Furiosa, a Rita responde com um grito:
-Tá aqui!
Os presentes que o Ti Rui tinha na mão caíram todos no chão, tal foi a surpresa. Eufórico, saiu para a rua e contou a toda a gente:
"A
Rita falou”
(histórias sem pés, nem cabeça – Liberdade)
Para o meu amigo Rui Veleda :)
Para o meu amigo Rui Veleda :)

Não comento coisas das quais gosto muito!
ResponderEliminarSe disse gosto diria muito pouco!!!
ResponderEliminarA Inês (Rita) Há-de gostar um dia!
Beijinho dela!
Também fiquei um pouco sem palavras... :)
ResponderEliminarSó mesmo quem vive esta realidade do autismo entende como são importantes as palavras, mesmo que seja só uma, não deixa de ser uma vitória ... tenho bem presente a ms do Rui a relatar este facto, o da Inês ter dito " TÔ QUI"
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