VI
Voando
desenho de Rui Veleda
Alexandre era um menino como todos os outros. Às vezes
portava-se bem, outras vezes fazia disparates, às vezes chorava, outras vezes
ria, às vezes tinha boas notas, outras vezes nem por isso, Alexandre não era
mais bonito que os outros miúdos, porque todas as crianças são bonitas.
Alexandre era uma criança igual a todas as outras, mas
tinha uma particularidade, nasceu sem poder andar. Nem toda a gente nasce
prefeito, nem todas as deficiências ou doenças têm uma cura e quando isto
acontece tem que se aprender a viver assim.
Alexandre cresceu e foi para a
escola, como todos os meninos. Ia no seu carrinho de bebé, já apertado. O pai e
a mãe haviam prometido uma cadeira de rodas, mas o dinheiro... o dinheiro, é
sempre o dinheiro o problema... A fábrica onde o pai trabalhava fechou, e o
dinheiro que a mãe ganhava quase não dava para pagar as despesas. Alexandre
compreendia isso, por isso não dizia nada. Mas sonhava com uma cadeira de rodas.
Na escola, os colegas empurravam
o carrinho, mas quando tocava para o intervalo todos saiam a correr e ele
ficava esquecido na sala.
- Venham-me buscar, por favor,
também quero ir ao intervalo.
Alexandre estava sempre
dependente dos outros para ir onde quer que fosse e isso deixava-o triste. Ele
queria ir, queria ir sem ter de pedir que o levassem.
Um dia a professora anunciou, na
sala de aulas, uma visita de estudo.
- Para a semana vamos visitar a
Assembleia da Republica. Vocês sabem o que é a Assembleia da Republica?
- Sim, sabemos. É a casa onde os
deputados aprovam as leis do país.
A professora sorria perante tanto
entusiasmo. De repente, o seu rosto ficou pesado, o seu sorriso desapareceu.
- Tu, Alexandre, não vais poder
ir. Lá há muitas escadas, muitos carros estacionados em cima dos passeios...
As lágrimas vieram aos olhos do
Alexandre. Ele queria ir. Se ao menos tivesse uma cadeira de rodas, se não
houvesse escadas, se as pessoas soubessem como é irritante estar dependente dos
outros... Tocou para o intervalo e nesse dia todos empurraram o carrinho do
Alexandre. Era muito triste ficar sozinho na escola.
- Temos que pensar numa maneira
de ires connosco.
- Podemos levá-lo ao colo.
- E como subimos para o autocarro?
Ele é muito pesado.
- E se fossemos nós e pedíssemos
aos governantes que dessem uma cadeira de rodas ao Alexandre?
- Muito boa ideia. Vamos falar
com a professora.
Alexandre sorriu, mas pensou nos
outros meninos como ele.
- Sim, vamos pedir que dêem uma
cadeira de rodas a todos os meninos que precisam.
A turma estava radiante.
- Não contamos nada à professora,
os adultos complicam sempre tudo, o melhor é fazermos isto à nossa maneira.
Os intervalos passaram a ser
cheios de segredinhos e cochichos. A professora já andava desconfiada que algo
se passava.
Chegado o esperado dia, logo cedo,
Alexandre e um grupo de colegas, os mais fortes, estavam perto do autocarro.
Assim que o motorista abriu a mala para as mochilas, os colegas trataram de
pegar no pobre rapaz e metê-lo na mala do autocarro.
- Vai lá para o fundo e fica
caladinho que a viagem não demora muito.
- Isto ainda vai dar mau
resultado.
- Não vai nada. Quando chegarmos,
já lá estamos. Depois se resolve.
- Mete depressa as mochilas à
frente que o motorista já aí vem.
- Já aqui estão? Isso é que é
pressa. Para as aulas não se despacham vocês.
- Hã! Então estavam aí!!! E eu à
vossa procura. Viram o Alexandre? Queria dar-lhe um beijinho antes de partirmos.
- Ele ficou em casa. Vamos embora
para não chegarmos tarde.
Todos entraram para o autocarro e
o motorista fechou a mala. O autocarro partiu, a turma ia caladinha, mas
agitada. A professora achou estranho, os seus alunos andavam muito estranhos desde
há uns dias.
Quando chegaram e o motorista
abriu a porta a primeira coisa que viu foi a cabecinha do Alexandre.
- O que é que fazes aqui? Deves
estar todo partido e cheio de dores no corpo. Isto é lá maneira de se viajar?
Quem te meteu ai?
- Oh meu Deus! Eu bem que andava
desconfiada que alguma vocês estavam a preparar. E agora? Que fazemos? Quem foram
os autores desta brincadeira?
A turma inteira chegou-se à frente.
- Fomos nós todos. Não era justo
ele ficar.
Já mais calmo, o motorista
retirou o Alexandre da bagageira e sentou-o num banco de jardim.
- Então, rapaz, isso é que é
força de vontade! Mas porque é que não contaram? Podia ter havido um acidente,
podias ter ficado magoado. Estás bem?
- Estou até muito bem. Aquilo
parecia um carrossel.
- E agora como vamos?
- Nada de dramas. Ele vai às
minhas cavalitas e assunto resolvido.
- Vamos em fila, de mãos dadas e,
por favor, portem-se bem. Não quero mais disparates. Não me deixem ficar mal.
Ao chegarem à Assembleia da
República, as crianças ficaram deslumbradas. Aguardaram numa sala com lindos
quadros antigos e tapetes vermelhos, onde foram recebidos pela presidente da
Assembleia.
- Bom dia! Que lindas crianças! Vieram
então conhecer a Assembleia da República?
- Não, – respondeu a Maria, que
era a mais espevitada da turma – viemos aqui pedir uma cadeira de rodas para o
Alexandre.
- Para mim e para todos os que
precisam.
- Quer então dizer que vieram
pedir uma cadeira de rodas.
- Sim. Os governantes, mesmo
aqueles que podem andar, têm carro, têm direito a um carro!... Recebem muito
dinheiro de ordenado. Pensamos que podia ser dividido por aqueles que realmente
necessitam de se deslocar e não podem andar de autocarro.
- Oh!oh!oh! – riu a presidente. Isso
não é assim. Tudo o que os governantes recebem está na lei, e é o povo que
escolhe os deputados que depois aprovam as leis. A senhora professora vai ter
que vos ensinar estas coisas na escola, não sei o que ela está a fazer...
E, virando-se para o Alexandre,
acrescenta:
- Temos pena, mas não podemos
fazer nada. Tens que ter fé e rezar muito. Deus ajuda os meninos bons e
obedientes, não os meninos mal comportados.
A professora estava estupefacta.
Nunca lhe tinha ocorrido que os seus alunos fossem capazes de fazer uma coisa
daquelas.
A Presidente já não estava a
gostar nada daquilo. Crianças demasiado espertas para o gosto dela e, para se
ver livre daquela situação o mais rapidamente possível, acrescenta:
- Agora, como se portaram muito
mal, perderam o direito de ver o parlamento e vão é todos de castigo lá para
fora.
Dizendo isto, abriu uma porta e
começou a empurrar as crianças, a professora e o motorista para fora.
O Alexandre estava muito triste, tanto sacrifício para
nada. Cerrou os punhos de raiva. Queria ir para onde lhe apetecesse, sem ter
que pedir ajuda aos outros. Deixa escapar um grito de angústia e raiva:
- EU QUERO SER LIVRE.
Dito isto, abre os braços e, qual
não é o seu espanto, consegue voar. E a voar, cruza os céus e passa para lá da Via
Láctea.
Embasbacadas ficaram as crianças,
o motorista e até a presidente da Assembleia. E a professora exclama:
- Ninguém pode prender a vontade
(histórias sem pés, nem cabeça – Liberdade)

Muito bonito
ResponderEliminarParabéns
Miguel Loureiro
Beijinhos
Adorei Ana Paula! A tua Imagina, cabeça e VONTADE, È TÃO GRANDE!!! Beijinhos e um grande abraço
ResponderEliminarCristina Franco
LINDOOO
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