VII
O Planeta da Matemática
Episódio
Passeata na Recta Real
Dizem que, quando somos crianças, basta fechar os olhos
devagarinho, deixar o pensamento correr, para embarcarmos no mundo do
imaginário. Aí as histórias acontecem... Depois crescemos e perdemos essa
faculdade, as histórias da vida real roubam-nos essa capacidade...
Eu andava muito ocupada com essas histórias, as da
vida real, nunca tinha tempo para fechar os olhos devagarinho e deixar o
pensamento correr, mas, mesmo que o fizesse, não consegui libertar-me das
histórias tristes que todos os dias acontecem. Porém, certo dia, o meu filho pergunta-me:
_ Mãe, o que é exactamente um número? Quero ver um.
_ Ah, ah, ah. Ver? Pegar num? Mas isso não é
possível... Deixa ver se eu te consigo explicar... Um número define uma
quantidade. Uma laranja, uma flor, uma estrela.
_ Mil estrelas, as estrelas são mil não é?
_ Não sei quantas são... Mas acho que são mais de
mil...
_ Mais? Depois não vamos ter números que cheguem
para as contar.
_ Vamos pois, os números nunca acabam... Deita-te
aqui, fica sossegadito, fecha os olhos devagarinho, vou-te contar uma história.
A tarde estava morna e o sol batia-nos na cara, o
silêncio era quase total. Apenas se ouvia o chilrear dos passarinhos. Também eu
fechei os olhos devagarinho e deixei que o meu pensamento corresse.
_Que terra é esta??
_Hum, deixa cá ver… Se não me enganei no caminho,
estamos no país dos números.
_ Boa, afinal sempre vou poder ver um número.
_Olha! Está ali alguém. Vamos lá perguntar.
À minha frente, uma rua muito comprida. Tão comprida
que não consegui ver o fim. Comprida e muito direitinha, nada de curvas e
contracurvas.
_Boa tarde! Viemos do planeta Terra. Podemos dar uma
voltinha por aqui? – perguntei eu ao senhor muito gordo, tão gordo que mais
parecia uma bola, e que estava parado mesmo no meio da rua.
Ele sorriu e respondeu:
_ Claro que podem. Bem-vindos ao planeta da
Matemática. Mas isto aqui é muito grande. Uma vida humana não chega para
conhecer todo o planeta.
_ Bem, sendo assim, se calhar o melhor é ficarmos cá
por uns tempos. Haverá por aqui algum hotel? Pode ser nesta rua.
_ Esta rua chama-se Recta Real. É aqui que moram
todos os números. Eu sou o Zero, moro mesmo no meio da rua. Sou o número mais
importante.
_ Está calado, que só dizes disparates. Tu nem vales
nada, ou melhor, vales zero. - Quem falava assim era o vizinho do senhor que
mais parecia uma bola, o senhor Zero – Eu, sim, sou importante. Sou o número
Um, o primeiro.
O Senhor Zero ficou muito zangado. Deitou a língua
de fora ao senhor Um, respondendo:
_ Primeiro coisa nenhuma. Explica lá como és o
primeiro se eu estou antes de ti? Querem lá ver isto! Ó pá, cala-te, és tão
fininho que ninguém te vê.
Que grande discussão que estava ali armada! Eu e o
meu filhote, o José Pedro, já nem sequer nos atrevíamos a dizer nada. Os ânimos
estavam exaltados. Foi então que o José Pedro começou a olhar para aquela rua
tão estranha e exclamou:
_ Mãe, repara. Todos os números têm um irmão gémeo.
_ Pois é, isto é mesmo muito estranho. Há dois
números uns, dois números dois, dois números três...
_ Tem lá calma, puto. Tu aqui és um visitante e já
vi que não entendes nada disto. Gémeos coisa nenhuma. Somos ligeiramente
diferentes. Aquele ali é positivo e eu sou negativo, logo, somos diferentes –
esclareceu o número Um negativo.
_ Não sabem ler as placas? Para que é que eu andei
com este trabalho todo a pôr placas aqui? Que balbúrdia vem a ser esta? Ordem
na recta! Ordem! – gritava um senhor, humano, muito velhinho com uma longa
barba branca - Olá visitantes. Eu sou o Pitágoras. Deixei o planeta terra
há muitos anos e vim morar para aqui. Sempre é mais agradável.
_ Olá, já ouvi falar de ti – respondi.
_ Ouviste? A propósito de quê? Deixei o planeta
terra há muitos anos...
_ Lá na terra és famoso, famoso e odiado por muitos
alunos...
_ Deixem-se de conversas e vejam as placas.
O José Pedro atravessa a rua para ver a placa que
estava atrás do senhor Zero, quando ouve um grito.
_ Seu bruto! Não me esmagues que também somos
números. Ui, ui, que dores! Grande pisadela, seu cegueta. Não vês onde pões os
pés?
Baixei-me para ver quem gritava daquela maneira. Tive
que colar os olhos em cima da recta e vi ali um número muito pequenino... Aliás,
vi uma montanha de números pequeníssimos...
_ Deixa-te de choradeiras. Vamos lá pôr ordem aqui -
Pitágoras estava desesperado com aquela confusão toda. Parecia que na terra da
matemática a palavra de ordem era mesmo ordem. – Ali, atrás do Zero, a placa
diz: Recta Real. É o nome desta rua À direita de sua Exa., o Senhor Zero, estão
todos os números positivos. À esquerda, todos os números negativos. O número
Zero é o único que não tem irmão “gémeo”. Aqui nesta terra a gente gosta de
ordem... Todos os números são importantes. Até mesmo o Zero.
O sol agora mergulhava devagarinho no rio. Senti
frio, abri os olhos e estava no Planeta Terra.
_ Mãe, já sei o que é um número! - diz o José Pedro,
dando-me um abraço.
_ Um outro dia, a gente volta àquela tão fantástica
terra...(histórias sem pés, nem cabeça – Liberdade)

Adorei...
ResponderEliminarÉ uma forma de explicar conceitos muito interessante.
:)
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