"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Penalenga


XVIII





À memoria dos que resistiram.









  Penalenga




Penalenga atravessa a anhara[1] a correr, veloz com uma gazela. Os seus pés descalços mal tocam nas areias escaldantes. Entra como um boi enraivecido no kimbo[2] e grita:
– Naia, Naia, mataram o soba[3].


No Kimbo faz-se silencio e tudo fica quieto e sereno por uns segundos. As mulheres e crianças cercam Penalenga sem  perguntas. Pegam nos batuques e tocam. O som do batuque percorre as areias escaldantes do deserto.

O Kimbo vizinho recebe a mensagem, responde, e é assim que o som do batuque percorre o Cuanhama[4] todo.

Naia e todas as mulheres dos Kimbo cantavam e dançavam. O seu companheiro deixara este mundo cheio de injustiças e partia. Ali, naquela terra selvagem no coração de África, a morte não é motivo de tristeza.



[1]  Anhara é uma grande extensão de terreno, semideserto coberta de ervas muito miudinhas, ocasionalmente veem-se árvores de grande porte. No tempo das chuvas o rio Cunene transborda alagando aquela zona e as anharas ficam cobertas de água, criando lagos sazonais chamados chanas.

[2] Kimbo conjunto de casas onde vivem pessoas da mesma família.

[3] Soba é a autoridade
[4] Cuanhama região do sul de angola








Angola 1885

Penalenga em cima de uma mulemba[1] avistava o horizonte. Temia o seu futuro e o futuro do seu povo. No Kimbo ainda soavam os batuques. Mataram o seu avô. Sem o chefe o Kimbo ficava mais frágil era urgente fazer alguma coisa. Os que não fossem mortos teriam de se submeter à vontade dos homens brancos que invadiam a sua terra. Penalenga estava preocupada, ouvira histórias de horrores de mulheres que tiveram que partir com os homens brancos. Penalenga decide então falar com Daudaco o filho do Kimbanda[2]:
– Daudaco temos de fazer alguma coisa, eles depressa chegarão aqui. Não podemos deixar.
– Mas que podemos fazer? As armas deles são mais poderosas que as nossas catanas.
– Faz um feitiço, forte, tão forte que os mates a todos.
– Isso não, não sei fazer esses feitiços.

Daudaco era um bom rapaz, mas no Kimbo dizia-se que nunca seria um Kimbanda. Daudaco não fazia mal a ninguém. Daudaco não fazia feitiços de morte. Penalenga encolhe os ombros e sussurrou:
 – Queres ver-me partir com eles? Mataram o meu avô. Nós vamos morrer ou pior, seremos escravizados… Tenho medo…
– Eu vou fazer um feitiço, não tenhas medo…

Penalenga sorriu. Ficava bonita quando sorria, tinha um sorriso rasgado bonito, que iluminava o seu rosto. Os seus olhos negros brilharam com um brilho fogoso. Afastou-se pela anhara, voltava ao Kimbo devagar, pensativa.

 No dia seguinte, assim que o sol nasceu, Penalenga subiu à sua mulemba e avistou Daudaco junto a um Imbondeiro[3], usava uma máscara feita de madeira e dançava em roda de um jingundeiro[4]. Penalenga sorriu e correu pela anhara.
– Conseguiste? – Perguntou ansiosa.
– Sim, acho que sim. Traz a kimbala.[5]
Penalenga dá-lhe uma cesta enorme, Daudaco recolhe do arbusto pequenos frutos vermelhos enche a kimbala.
– Agora vai, lança a semente destes jindungos em todo o comer deles e na água também. Sem água e sem comida terão que partir. Vai com cuidado, que
ninguém te veja. É melhor ires de noite, o céu está connosco e a noite vai ser escura.
– Vão morrer?
– Não. – Daudaco baixa a cabeça – Desculpa mas eu não sei fazer feitiços de morte.
– Então que vai acontecer?
– Eu tornei o jindungo picante. Tão picante que eles não vão suportar, vão fugir. Teremos tempo de ter outro soba e meu pai, o grande  Kimbanda, saber o que fazer. Vamos resistir, não temos medo.

Penalenga volta ao kimbo misteriosa, mas antes escondera bem a kimbala com os estranhos frutos.

E quando o sol desceu, o céu ficou vermelho, cor de fogo, e segundos depois negro. Penalenga espera que a fogueira se apague, assegura-se que ninguém a vê e parte ligeira com uma gazela, silenciosa com uma hiena.

Caminha toda a noite. Dorme de dia e, quando a noite cai novamente, retoma o seu caminho. Foi assim durante três  noites.  Na quarta noite Penalenga vê o acampamento dos colonos. Sente um arrepio, mas não podia desistir. Espera que o fogo do acampamento se apague, depois, ágil e matreira, entra no acampamento sem ser vista, espalha as sementes do estranho fruto em toda a comida e água, e depois sai.

Afasta-se o suficiente, sobe a uma árvore, como se fosse um macaco, e fica de vigia. Os colonos acordam, saem das estranhas cubatas e depois começam a fazer a comida. Penalenga semicerra os grandes olhos negros e fica atenta.

Segundos depois vê os colonos a correr pelo acampamento como se tivessem pegando fogo. Eles gritam e correm desesperados, levando as mãos à boca. Penalenga dá uma gargalhada e permanece no seu posto de vigia. Ao fim de algum tempo os homens desmontam o acampamento e partem.

Penalenga espera que a noite caia e depois regressa ao kimbo. Pelo caminho vê os Imbondeiros em flor.  Dendela, assim se chama a flor do imbondeiro, que apenas dura um dia, tem um cheiro estonteante, muito agradável; Penalenga sente-se feliz.

Ao chegar ao kimbo procura Daudaco e conta-lhe todos os acontecimentos. Os dois combinaram então guardar segredo para sempre sobre a fuga dos colonos e, quando questionados porque motivo os jindungos estavam tão picantes, eles riam-se cúmplices.

O Kimbo ganhara mais tempo para organizar a resistência, agora sobre o comando do novo Soba, com a ajuda do grande Kimbanda.











Epílogo

O jindungo espalhou-se por Angola inteira – e depois pelo mundo – sempre picante, mas já não tanto, pois o feitiço de Daudaco ficou suavizado pelo tempo.

Se quiseres ter um jindungueiro na tua casa enterra com carinho uma semente, e pela Primavera verás nascer um jindungueiro que te fará lembrar esta história e o resistente povo do Cuanhama que enfrentou a ocupação portuguesa, sendo uma das últimas tribos a render-se, mostrando muita dignidade e muita coragem, lutando em desigualdade de meios.

 ...

Só em 1917 se verificou a ocupação efetiva do Cuanhama. O Rei Mandume preferiu pôr termo à sua vida que render-se, e este facto foi sempre ocultado pelos portugueses, pois nunca é o leão que conta a história da caçada…









Texto de Liberdade

Desenhos de Liberdade


Dias de 2015 











[1] Mulemba árvore de grande porte.
[2] Kimbanda é um feiticeiro .
[3] Imbondeiro, árvore de grande porte, com muito poucas folhas, muito típica de Angola.
[4] Jingundeiro, arbusto que dá o Gindungo semelhante ao piripiri ou malagueta.
[5] Kimbala cesta.

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