XVIII
À memoria dos que resistiram.
Penalenga
Penalenga atravessa a anhara[1]
a correr, veloz com uma gazela. Os seus pés descalços mal tocam nas areias
escaldantes. Entra como um boi enraivecido no kimbo[2]
e grita:
– Naia, Naia, mataram o soba[3].
No Kimbo faz-se silencio e tudo fica quieto e sereno por uns
segundos. As mulheres e crianças cercam Penalenga sem perguntas. Pegam nos batuques e tocam. O som do batuque percorre as areias escaldantes do
deserto.
O Kimbo vizinho recebe a mensagem, responde, e é assim que o
som do batuque percorre o Cuanhama[4]
todo.
Naia e todas as mulheres dos Kimbo cantavam e dançavam. O seu
companheiro deixara este mundo cheio de injustiças e partia. Ali, naquela terra
selvagem no coração de África, a morte não é motivo de tristeza.
[1] Anhara é uma grande extensão de terreno, semideserto
coberta de ervas muito miudinhas, ocasionalmente veem-se árvores de grande
porte. No tempo das chuvas o rio Cunene transborda alagando aquela zona e as
anharas ficam cobertas de água, criando lagos sazonais chamados chanas.
[2]
Kimbo conjunto de casas onde vivem pessoas da mesma família.
[3]
Soba é a autoridade
Angola 1885
Penalenga em cima de uma mulemba[1]
avistava o horizonte. Temia o seu futuro e o futuro do seu povo. No Kimbo ainda
soavam os batuques. Mataram o seu avô. Sem o chefe o Kimbo ficava mais frágil
era urgente fazer alguma coisa. Os que não fossem mortos teriam de se submeter
à vontade dos homens brancos que invadiam a sua terra. Penalenga estava
preocupada, ouvira histórias de horrores de mulheres que tiveram que partir com
os homens brancos. Penalenga decide então falar com Daudaco o filho do Kimbanda[2]:
– Daudaco temos de fazer alguma coisa, eles depressa chegarão
aqui. Não podemos deixar.
– Mas que podemos fazer? As armas deles são mais poderosas
que as nossas catanas.
– Faz um feitiço, forte, tão forte que os mates a todos.
– Isso não, não sei fazer esses feitiços.
Daudaco era um bom rapaz, mas no Kimbo dizia-se que nunca
seria um Kimbanda. Daudaco não fazia mal a ninguém. Daudaco não fazia feitiços
de morte. Penalenga encolhe os ombros e sussurrou:
– Eu vou fazer um feitiço, não tenhas medo…
Penalenga sorriu. Ficava bonita quando sorria, tinha um
sorriso rasgado bonito, que iluminava o seu rosto. Os seus olhos negros
brilharam com um brilho fogoso. Afastou-se pela anhara, voltava ao Kimbo
devagar, pensativa.
– Conseguiste? – Perguntou ansiosa.
– Sim, acho que sim. Traz a kimbala.[5]
Penalenga dá-lhe uma cesta enorme, Daudaco recolhe do arbusto
pequenos frutos vermelhos enche a kimbala.
– Agora vai, lança a semente destes jindungos em todo o comer
deles e na água também. Sem água e sem comida terão que partir. Vai com cuidado,
que
ninguém te veja. É melhor ires de noite, o céu está connosco
e a noite vai ser escura.
– Vão morrer?
– Não. – Daudaco baixa a cabeça – Desculpa mas eu não sei
fazer feitiços de morte.
– Então que vai acontecer?
– Eu tornei o jindungo picante. Tão picante que eles não vão
suportar, vão fugir. Teremos tempo de ter outro soba e meu pai, o grande Kimbanda, saber o que fazer. Vamos resistir, não temos medo.
Penalenga volta ao kimbo misteriosa, mas antes escondera bem
a kimbala com os estranhos frutos.
E quando o sol desceu, o céu ficou vermelho, cor de fogo, e
segundos depois negro. Penalenga espera que a fogueira se apague, assegura-se
que ninguém a vê e parte ligeira com uma gazela, silenciosa com uma hiena.
Caminha toda a noite. Dorme de dia e, quando a noite cai
novamente, retoma o seu caminho. Foi assim durante três noites. Na quarta noite Penalenga vê o acampamento dos
colonos. Sente um arrepio, mas não podia desistir. Espera que o fogo do
acampamento se apague, depois, ágil e matreira, entra no acampamento sem ser
vista, espalha as sementes do estranho fruto em toda a comida e água, e depois
sai.
Afasta-se o suficiente, sobe a uma árvore, como se fosse um
macaco, e fica de vigia. Os colonos acordam, saem das estranhas cubatas e
depois começam a fazer a comida. Penalenga semicerra os grandes olhos negros e
fica atenta.
Segundos depois vê os colonos a correr pelo acampamento como
se tivessem pegando fogo. Eles gritam e correm desesperados, levando as mãos à
boca. Penalenga dá uma gargalhada e permanece no seu posto de vigia. Ao fim de
algum tempo os homens desmontam o acampamento e partem.
Penalenga espera que a noite caia e depois regressa ao kimbo.
Pelo caminho vê os Imbondeiros em flor. Dendela,
assim se chama a flor do imbondeiro, que apenas dura um dia, tem um cheiro
estonteante, muito agradável; Penalenga sente-se feliz.
Ao chegar ao kimbo procura Daudaco e conta-lhe todos os acontecimentos.
Os dois combinaram então guardar segredo para sempre sobre a fuga dos colonos e,
quando questionados porque motivo os jindungos estavam tão picantes, eles
riam-se cúmplices.
O Kimbo ganhara mais tempo para organizar a resistência,
agora sobre o comando do novo Soba, com a ajuda do grande Kimbanda.
Epílogo
O jindungo espalhou-se por Angola inteira – e depois pelo
mundo – sempre picante, mas já não tanto, pois o feitiço de Daudaco ficou
suavizado pelo tempo.
Se quiseres ter um jindungueiro na tua casa enterra com
carinho uma semente, e pela Primavera verás nascer um jindungueiro
que te fará lembrar esta história e o resistente povo do Cuanhama que enfrentou
a ocupação portuguesa, sendo uma das últimas tribos a render-se, mostrando
muita dignidade e muita coragem, lutando em desigualdade de meios.
Só em 1917 se verificou a ocupação efetiva do Cuanhama. O Rei
Mandume preferiu pôr termo à sua vida que render-se, e este facto foi sempre ocultado
pelos portugueses, pois nunca é o leão que conta a história da caçada…
Texto de
Liberdade
Desenhos de
Liberdade
[1]
Mulemba árvore de grande porte.
[2]
Kimbanda é um feiticeiro .
[3]
Imbondeiro, árvore de grande porte, com muito poucas folhas, muito típica de
Angola.
[4]
Jingundeiro, arbusto que dá o Gindungo semelhante ao piripiri ou malagueta.
[5]
Kimbala cesta.



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