O
caminho
do
menino travesso
Marcelo saiu da cama, correu para a
televisão era hora de desenhos animados, mas a mãe veio logo e com uma cara de
quem não estava para brincadeiras disse:
-Marcelo! Desliga já a TV que tens de
te despachar para a ires para a escola.
-Hoje não vou à escola – respondeu
Marcelo tranquilamente.
-Então filho? Queres que te cresçam
umas orelhas de burro como o Pinóquio? Se mentires cresce-te o nariz e se não
fores à escola, crescem-te umas orelhas de burro. Vamos lá vestir, lavar os
dentinhos e ir para a escola.
E dito isto a mãe enfiou-lhe pela
cabeça abaixo uma camisola de lã que picava, pior que isso colocou-lhe um gorro
e calçou-lhe umas horrorosas botas.
-Estás todo pinoca! Hoje vais ser o
menino mais bonito da escola – concluiu a mãe, orgulhosa do seu pequenote.
Mas Marcelo não se sentia nada feliz,
odiava quando a mãe lhe falava do Pinóquio, que história horrorosa. Durante
todo o caminho para a escola a mãe não se calou:
-Marcelo porta-te bem. Marcelo não te
esqueças de comer o lanche. Marcelo presta atenção à professora. Marcelo, Marcelo…
Marcelo isto e aquilo…
Ao chegarem à escola, havia uma
grande confusão no portão. Todos os professores estavam cá fora com as suas
turmas, toda a gente estava muito agitada. Os professores diziam aos alunos:
-Hoje vem à escola o senhor Ministro,
não queremos gritos, nem choros, muito menos correrias. Vamos entrar calados, fazer
os trabalhos calmamente e se vos fizerem perguntas respondam educadamente. Entenderam
todos?
Marcelo não fazia a mínima ideia do
que seria um ministro, mas assim à primeira vista pareceu-lhe que seria algo assim
muito… muito chato.
A diretora da escola estava muito nervosa
e gritava com as Auxiliares.
-Apanhem aquelas folhas, quero isto
um mimo – quando de repente ao olhar para uma parede do pátio viu um macaco
desenhado na parede – mas quem é que desenhou um macaco na parede?
-Eu não fui – respondeu um miúdo.
-Eu também não.
-Muito menos eu.
-Não faço ideia quem terá sido.
-Talvez fossem os monstros durante a
noite.
-Ou os professores…
A rapaziada agora ria à socapa,
Marcelo encolheu-se o mais que pode, ele bem sabia quem tinha desenhado o macaco.
O dia prometia ser cheio de sarilhos e castigos para o lado dele.
-Ó Albertina traz um vaso de flores
para tapar esta macacada. Amanhã, tiro isto a limpo. Nem sei o que sou capaz de
fazer ao espertinho – e, resmungando, a diretora afastou-se para o seu gabinete.
As turmas alinharam e, em silêncio,
todos entraram nas salas de aulas. Todos? Não, Marcelo aproveitando a agitação escapuliu-se
pelo portão que tinha ficado aberto e foi para o parque que ficava em frente à
escola.
No parque tirou as horrorosas botas,
deixando-as ficar espalhadas no relvado, depois correu, subiu às árvores, viu
em cima de uma delas um ninho, espreitou: dois passarinhos pequeninos piavam,
entretanto chegou a mãe, deles. Trazia no bico duas minhocas:
-Uma para ti, peninhas, e outra para
ti patinhas. Calma, calma, vou buscar mais.
Num voo rápido o pássaro desceu, esgaravatou
a terra e voltou a subir com mais duas minhocas que colocou cuidadosamente na
boca de cada um. Que nojo, pensou Marcelo, então os pássaros comem minhocas!?.
O sol era agora uma enorme bola
amarela no céu muito azul, Marcelo sentiu calor e lá se foi a camisola que
ficou pendurada num galho. Desceu da árvore e subiu a outra à procura de mais
ninhos, sentia-se cansado mas feliz. Deitou-se na relva a recuperar energias,
coisa de poucos segundos, logo depois rebolou até ao lago, onde havia peixinhos
e sapos que o convidaram para nadar. Não hesitou um segundo e desta vez, foi o
resto da roupa que ficou espalhada por cima das pedras que cercavam o lago.
Esteve muito tempo no lago a brincar às escondidas com os peixes depois meteu
conversa com um sapo, falaram sobre histórias.
-Sabes sapo, a mãe não pode saber que
não fui à escola, mas se mentir cresce-me o nariz, também estou com medo que me
cresçam umas orelhas de burro – lamentava-se Marcelo – não sei o que fazer…
-Croc, croc – respondeu-lhe o sapo.
-Que pena que eu tenho de não saber a
língua dos sapos, se calhar até sabes histórias giras de sereias ou de monstros
marinhos.
-Croc, croc – parecia que o sapo não
sabia dizer outra coisa. Os olhos grandes e esbugalhados do sapo fixavam atentamente
Marcelo, nisto deitou para fora uma grande língua e zás apanhou uma mosca.
-Comes moscas? Que nojo!
-Croc, croc – ia dizendo o sapo.
A fome agora apertava, lembrou-se que
havia um lanche na mochila. Ao ver que o lanche era fruta, sentiu-se desolado, andava
enjoado de fruta. O que ele queria mesmo eram lanches de doces, porque não
haviam de ser bolos? Sim bolos! Não
entendia por que motivo os lanches não podiam ser de bolos e chocolates. Desanimado
e abatido encostou-se a uma árvore. Pensa“ Se ao menos aparecesse, agora aqui,
uma fada, que me transformasse este lanche em doces” de repente vê de relance,
um pequenino ser, esvoaçando uns galhos a cima. Esticou-se o mais possível, até
chegar ao misterioso ser que tinha forma de mulher, mas muito pequenina com umas
asas muito estranhas que brilhavam nas costas.O que seria aquilo? Intrigado e
com um certo receio Marcelo perguntou:
-Quem és?
-Eu? Sou a fada do chocolate – respondeu-lhe o
pequeno ser, numa voz muito meiga – se for teu desejo transformo a tua maçã num
delicioso queque de chocolate.
-Boa! Transforma já esta fruta em
chocolate – diz Marcelo num ímpeto.
-É para já – a fada sorri e voou mais
para baixo.
-Humm! Não és nada uma fada – duvidou
o Marcelo – és uma bruxa que me quer engordar, para depois me comer, também
conheço essa história. Marcelo começa a choramingar. A fada na sua voz doce
continuou:
- Ora! Estás a falar da bruxa de João
e Maria, ouve lá porque não usas a cabeça para pensar? Se a bruxa tinha uma
casa de chocolate por que motivo haveria de quer comer os meninos? Vais ver era
uma bruxa parva.
-Hum – Marcelo, fica calado e quieto
uns minutos – é tão difícil pensar em coisas complicadas, mas tens razão,
aquela bruxa devia mesmo ser parva. Mas se calhar andava enjoada de chocolate…
-Achas que alguém se pode enjoar de
chocolate? – Perguntou a fada espantadíssima e até um pouco triste.
-Não! Claro que não, o chocolate é
tão bom que não enjoa. Transforma lá esta fruta num queque de chocolate.
A fada do chocolate pegou na sua
varinha de condão, com um ar muito compenetrado, diz tocando na maçã:
- Pará-pá-tá, pará-pá-ti, que o
segredo do mel, transforme esta maça num suculento e delicioso queque de chocolate.
Marcelo mal podia acreditar no que
via, um delicioso queque pingando chocolate por todos os lados. Num instante o
queque desapareceu.
-Estava tão bom! – disse Marcelo com
a boca toda lambuzada de chocolate – apetecia-me outro.
-Que não seja por isso, ora dá aí
aquela folha.
Marcelo pega num monte de folhas e
dando-as à fada.
-Estás a exagerar, mas seja. Pará-pá-tá,
pará-pá-ti, que o segredo do mel, transforme estas folhas em suculentos e
deliciosos queques de chocolate.
Num instante as folhas foram
transformadas em queques absolutamente deliciosos.
-Obrigado – agradeceu Marcelo – és
uma verdadeira fada, gosto muito de ti.
Levantou-se, guardou o resto dos queques na
mochila e deu um abraço à fada.
-Agora vai, e não te esqueças de usar
a tua cabecinha para pensar.
Marcelo fez adeus à fada seguindo
pelo parque. Quase a chegar aos escorregas encontrou três monstros. Deu pulos
de alegria ao vê-los: adorava monstros.
- Monstros. Monstros! Querem vir
brincar comigo? – Perguntou entusiasmado.
Os monstros ficaram surpreendidos,
aquilo não era normal a pequenada tinha medo de monstros, e sempre que viam um,
choravam e fugiam o mais depressa possível, mas Marcelo estava ali seguro de
si, forte a falar de igual para igual com os monstros. O maior, o mais feio deu
um passo à frente:
-Brincar contigo? – Perguntou, numa
voz rouca e abafada – nós somos monstros, terríveis e maus, ninguém se aproxima
de nós e tu devias desatar aos berros. Fugir só de nos veres – O monstro deixou
cair os ombros, desanimado e sumidamente acrescentou: – Não estou a entender
nada disto, explica-te melhor.
-Eu gosto de monstros, queria tanto
ser um monstro, terrível, feio, com o cabelo espetado, não gosto nada de ser um
menino pinoca, é tudo tão chato…
-Hum, hum… eu cá, acho que devias
gostar de ser como és – falou uma monstra, a mais pequenina.
-Cala-te monstra pequena, achas que
um rapaz forte e valente como este, vai ouvir uma monstra pequenina como tu?
-Deixa-a falar, as monstras
pequeninas dizem muitas vezes coisas giras, só porque é pequenina, já ninguém a
ouve? Não acho isso uma coisa certa, não gosto nada quando me mandam calar, ou
pior que isso, quando me obrigam a dizer e a fazer coisas que não quero como a
mãe: “ Marcelo dá um beijo à senhora, Marcelo diz por favor, Marcelo não se
chama gorda às senhoras, Marcelo, Marcelo, Marcelo faz isto e aquilo…”
- Desculpa monstrinha – disse humildemente
o monstro mais feio – claro que tens o direito de falar, tens o direito de
dizeres tudo o que sentes, afinal de contas és uma monstrinha.
- Que pena não ter aqui os meus
brinquedos – lamentou Marcelo – tenho um comboio novinho em folha, nem posso
levar para a escola que a mãe diz que foi muito caro e não é para estragar.
Agora brincávamos todos.
-Não é por isso que vamos deixar de
brincar! – Desta vez, foi um monstro verde que falou – que acham da ideia de
fazermos os nossos brinquedos?
-Fazer brinquedos? Eu não sei fazer
brinquedos – lá estava o Marcelo outra vez a choramigar.
-Aprendes connosco, porque nós também
não sabemos.
Todos riram, fizeram uma roda e começaram
a cantar :
Monstros, monstrinhos,
Menino travesso,
Constrói caminho,
Põem tudo de avesso,
- Ali está uma caixa, colocamos estes
troncos a fazer de rodas e pronto, fica um belo carro, vai descer este monte em
alta velocidade e parar lá em baixo.
Com muito afinco, todos começaram a
construir o carro. Foi muito difícil pregar os troncos à caixa mas, por fim, lá
conseguiram. Marcelo foi o primeiro a saltar para dentro da caixa.
-Anda comigo monstrinha , vamos
passear.
Todos os monstros saltaram para
dentro da caixa.
-Yuppppi lá vamos nós!- Marcelo
estava eufórico.
Mas a caixa não andava, parecia
colada ao chão, algo de muito errado estava a acontecer. Que seria? Que teriam
eles feito de errado? Marcelo começa novamente num grande choro.
-Eu não vos disse que isto de fazer
brinquedos era muito difícil? Esta porcaria não anda.
-Pois não anda – concluíram todos os
monstros. – Mas devia andar. Não sei o que terá acontecido!
Sentaram-se à roda da caixa, olhando
para ela, muito desanimados.
-Temos de pensar, pensar é uma coisa muito
complicada e muito difícil, mas tem de ser – Marcelo contou então o episódio da
fada do chocolate e o conselho dela.
-Oh!Oh!Oh! – riram-se os monstros – que
história mais parva uma bruxa que tinha uma casinha de chocolate e queria comer
meninos Oh!Oh!Oh! Que tolice.
-Pois! Fui um tolo, não pensei… –
reconhece Marcelo.
- A mim parece-me que isto não anda
porque está mal construído – conclui a monstrinha mais pequena.
- Ó não! As rodas não podem estar
pregadas à caixa, elas tem de girar, fomos mesmo parvos – analisou o monstro
mais feio.
E voltaram a rir às gargalhadas,
rodas pregadas, que coisa mais pateta – acrescentou o mostro verde.
-Mas então? Como vamos fazer? –
Interroga o Marcelo preocupado.
-E se amarrássemos dois troncos ao
fundo da caixa, as rodas encaixam nos troncos – o monstro mais feio coçava a cabeça
– hum, hum… um eixo daqui para ali, hum, hum…
-Parece-nos uma ideia muito acertada,
vamos tentar.
Todos trabalharam, amarraram o tronco
à caixa e colocaram umas rodas. Era realmente um trabalho muito complicado que
exigia muita perícia. Por fim conseguiram.
-Yupi! Desta vez é que vai ser.
Monstros, monstrinhos,
Menino travesso,
Constrói caminho,
Põem tudo de avesso
Colocaram a caixa no alto do monte,
subiram para ela e a caixa começou a rolar. Marcelo e os monstros gritaram de
contentamento. A caixa ganhou velocidade.
-Oh não! Esquecemo-nos dos travões, vamo-nos
estatelar no meio do lago – saltem todos muito depressa.
Que giro que era fazer brinquedos e
brincar com eles.
-Obrigado Monstros por me ensinarem a
construir brinquedos, Deem-me um abraço bem forte.
-Nós é que te agradecemos, não
tiveste medo, foi uma brincadeira muito gira. Divertimo-nos muito – disse o
monstro mais feio.
-Muitíssimo – acrescentou a monstra
mais pequenina.
Trocaram abraços e Marcelo prometeu
voltar outro dia, para mais brincadeiras.
Marcelo seguiu o seu caminho pelo parque.
Ao chegar ao limite do jardim viu lá ao fundo uma casa velha, em tempos dissera
ao pai que queria ir ali, ver o que havia, mas nessa altura o pai disse-lhe “
nem penses ir por esse caminho, existe ali uma bruxa muito má”.
Marcelo, sentou-se no banco do
jardim, “ não vás por esse caminho”. Mas porquê? Porque não posso ir?” pensava,
o pai apenas lhe tinha dito que havia uma bruxa muito má, “mas se eu não for,
não saberei nunca se ela é má, pode ser uma bruxa boa”. Ficou um bocadinho
vacilante.” Vou? Não vou? “ E por fim decidiu ir, avançou devagarinho, como um
gato que vai à caça, pé ante pé, chegou perto da casa, espreitou pelo vidro
partido de uma janela, e viu uma velha, muito velha, sentada numa cadeira de
baloiço. A cabeça caía-lhe para à frente, aos pés dela estava um gato preto. “
Só pode ser uma bruxa” pensou Marcelo e meteu a cabeça pelo buraco da janela,
ouviu a velha ressonar, o gato abriu um olho e deixou-se ficar. Foi então que
Marcelo deu a volta à casa abriu a porta e gritou:
-BUM!
A velha estremeceu na cadeira,
levantou a cabeça olhou-o fixamente.
- Um pirralho!? – Disse ela com ar de
poucos amigos e com as mãos nas ancas acrescentou: – Temos aqui um pirralho,
que não sabe que não se assuntam os velhos.
- Mas se és uma bruxa não devias
ficar assustada com nada – justificou-se Marcelo.
-Achas que sou uma bruxa?
-Sim, o pai disse que não deveria
nunca seguir este caminho, que aqui havia uma bruxa muito má.
-Ora! Como é que ele sabe se sou má
ou boa? Nunca cá esteve.
-Foi o que eu pensei, por isso vim averiguar.
-Dava-te um doce, mas nesta casa não
há nada para comer – lamentou a velha.
A velha começou a abrir as panelas e
tachos que estavam em cima do fogão, Marcelo pensou “ Não há nada para comer,
ela vai certamente meter-me naquele caldeirão.”
-Eu ainda aqui tenho queques de
chocolate que a fada do chocolate fez para mim, queres um?
-A fada do chocolate? Que ideia mais
deliciosa. Quero sim, tenho muita fome, dá-mo depressa.
-Toma dois, não quero que fiques com
fome, porque se ficares com fome acabas por me comer a mim.
A velha sorriu e agarrou-se logo ao
queque. De seguida Marcelo deu-lhe outro e perguntou.
-És mesmo uma bruxa verdadeira?
-Dizem que sim…
-Boa! Trás a tua vassoura e vamos dar
uma volta pelo céu.
-Não pode ser, ela está avariada.
A velha foi buscar a vassoura que
estava atrás da porta, meteu-a no meio das pernas.
-Estás a ver não voa!
-Que chatice, tens que a mandar
arranjar depressa, uma bruxa sem uma vassoura decente não é nada.
-Mas tenta tu, quem sabe contigo
funciona.
-Está bem, vou tentar, diz-me as
palavras mágicas.
-Palavras mágicas?
-Sim, as que põem a vassoura a voar.
-Hum... deixa-me ver se me lembro, ah
já sei “pelos dentes de pulga e escamas da galinha, começa a voar“
-Uau!!! Que password gira, vou
experimentar.
Marcelo montou em cima da vassoura e
disse:
-Pelos dentes de pulga e escamas da
galinha, começa a voar.
No entanto a vassoura não se mexeu, a
velha riu às gargalhadas.
-Estás a gozar comigo?
-Não, devo ter-me enganado nas
palavras, deixa-me pensar … hum, hum…
-Pensa rápido, estou com pressa para
voar.
-Não me enganei! Tens é que as dizer
com força, com entusiasmo. Tens mesmo que querer voar.
Marcelo concentrou-se e muito persuadido
disse com ardor:
-Pelos dentes de pulga e escamas da
galinha, começa a voar. Já.
A vassoura deu um pinote e bateu no
teto.
-Abre a porta depressa – gritou
Marcelo – estamos a voar.
A velha abriu a porta depressa e a vassoura
saiu. Marcelo encantado, mas tremendo de
medo, agarrou-se bem ao pau da vassoura, viu o mundo cá em baixo, pequenino,
fez adeus e deu um olá a um bando de pombas. À porta de casa a bruxa fazia-lhe
adeus.
-Quero descer – gritou Marcelo – as
palavras mágicas para descer se faz favor.
-Pelas asas do lagarto e cabelos de
mosca desce. Já! – Gritou a bruxa.
Mas a vassoura não desceu, pelo
contrário deu várias piruetas no ar. Marcelo ia alternado gargalhadas, gritos
de terror, choros e gritava:
-As palavras mágicas, por favor. Estou
a ficar enjoado.
-Pelas penas brancas da pomba preta,
desce. Já.
A vassoura deu meia volta e começou a
descer, aterrou devagarinho aos pés da bruxa. Marcelo desceu e correu para a
bruxa, abraçou-a, o seu coração batia muito depressa, as suas pernas tremiam. A
velha debruçou-se sobre ele e pegou-o ao colo. Tentando anima-lo, disse:
-Então? Não é caso para ficares
assim, não estás é habituado a estes passeios, vais ver o próximo corre melhor.
-Gostei tanto, mas tanto, tens muita
sorte em ser bruxa e teres uma vassoura, eu queria tanto ser um bru… - Marcelo
não acaba a frase, lembra-se das palavras da monstrinha “devias gostar de ser
como és” – sabe, eu gosto de ser menino, mas também gostava de ter uma
vassoura.
-Foi tão bom teres vindo! Há tanto
tempo que ninguém vinha cá, diverti-me muito, fizeste-me muito bem – duas
lágrimas brilhantes escorreram pelo rosto da bruxa.
-Estás a chorar? Tens fome? Queres mais
queques de chocolate? Sabes, já não te acho feia, até te acho bonita – Marcelo
deu um beijo à bruxa.
-Vamos então comer queques de
chocolate, enquanto descansamos.
-Sabes histórias? – Perguntou
Marcelo.
-Acho que não, mas podes-me contar tu
uma, porque eu acho que já me esqueci de todas.
-Eu sei algumas. Mas não gosto delas,
queria era uma que fosse terrível com Monstros.
-Podes também escrever histórias –
explicou a bruxa.
-Como? Eu ainda nem sei ler – esclareceu
Marcelo timidamente.
-É fácil – A bruxa meteu a mão no
bolso do avental e tirou um livro – O “b” com o “a” bá, o “c” como o “a” cá o t
com o “a” tá. Agora tu com o “u”
-O “b”com o “u” bu, o ” c” com o “u”
cu – Marcelo levou as mãos à boca – Ops! Disse uma asneira.
A bruxa riu, não são asneiras, são
palavras e todas elas importantes, as palavras contam sentimentos, vontades,
histórias e essas coisas é que podem não ser boas, entendes?
-Não muito bem, mas vamos agora para
o é, o” b” com o “e” bé…
Marcelo e a bruxa ficaram muito tempo
a conversar, a ler e a comer queques de chocolate, sentados no degrau da casa,
quase em ruinas, da bruxa. Por fim Marcelo disse:
-O melhor é ir embora, acho que
sarilhos muito grandes esperam por mim na escola.
-Vai, meu rapaz, e volta sempre que
queiras.
Marcelo passa pelo lago, diz olá aos
peixes e sapos que nadavam, veste as calças e a t-shirt, segue até à árvore
onde tinha ficado a camisola de lã, depois corre pelo relvado, encontra as
botas e calçou-as, dirige-se à escola.
Estavam todos cá fora, numa grande
agitação. Marcelo aproxima-se pé ante pé, como um gato que vai à caça, o portão
estava aberto, Marcelo entra e mistura-se com os outros. O tal
ministro já se tinha ido embora, os professores estavam contentes a diretora estava
mais calma, passa por ele, Marcelo encolhe-se, ela segue em frente mas de
repente vira-se, volta atrás, para mesmo em frente dele e diz:
-Agora nós rapaz! Conta lá o que te
passou pela cabecinha para desenhares um macaco na parede?
-Eu…Eu… – gaguejou Marcelo – A parede
estava tão feia …
-Ó! Achas que esta melhor assim?
Desta vez passa, mas não o voltes a fazer.
-Ufa! Já me safei desta – suspirou
Marcelo.
Passados uns minutos chega a mãe dá-lhe
um beijo, e pergunta:
-Então meu filho querido, o frio que
fez hoje? Soube-te bem a camisola de lã não foi? Comeste o lanche?
Marcelo ia respondendo “ sim” ao
passarem pelo parque espreitou pela janela viu os escorregas, mas os monstros
já não estavam lá. Que dia fantástico que tivera, aprendera tantas coisas.
- Acho que estás triste – diz a mãe,
olhando pelo espelho retrovisor do carro – Quando chegarmos faço-te uns queques
de chocolate queres?
-Não mãe. Estou enjoado de chocolate,
quero é fruta fresquinha.
-Não queres queques de chocolate!?
Que se passa Marcelo? Estás tão estranho, hoje…
Nessa noite Marcelo, foi para a cama
cedo. A mãe como é hábito deu-lhe um beijo e sentada à beira da cama contou-lhe
uma história.
Marcelo adormece quase imediatamente,
a mãe olha-o com ternura e sai do quarto apagando a luz.
É então que Marcelo abre um olho e
ouve.
-Pssiuu!
-Quem está ai?- perguntou intrigado.
-Quem havia de ser, somos nós os
monstros.
-Monstros! Que bom terem vindo.
-Oh!Oh!Oh! Nós vivemos debaixo das
camas.
-Venham para cima da cama podemos
fazer uma guerra de almofadas e dar pulos.
Lá fora ouvia-se o piar dos mochos, o
céu era agora azul-escuro e a lua cor de prata brincava às escondidas com as
nuvens, um raio abrilhanta o céu, bumm catrapum, começou a chover
torrencialmente.
-Está uma tempestade com trovões e
raios. Vamos todos para a cama tapar as cabeças – gritou Marcelo aos monstros.
Na cama, quietinhos, abraçados uns
aos outros de cabeça tapada acabaram por adormecer. Lá fora acontecia a noite, cheia
de mistérios por desvendar onde o grito das bruxas se confunde com o piar dos
mochos. Na casa em ruinas no limiar do jardim está uma velha, muito velha,
sentada na sua cadeira de baloiço, dorme feliz.
Setúbal, 25 de março de 2015
Liberdade
Aos meninos travessos

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